segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Algures no metro

A carruagem tinha pouca gente. Ela escolhe quase sempre o mesmo lugar, perto da porta e junto ao vidro. Ele entrou no metro já as portas estavam a fechar. Parou, respirou fundo e olhou em volta. Ela tirou o livro da mala, abriu-o no página onde estava o marcador e no momento em que levantou os olhos para ver as horas no painel exterior, o seu olhar ficou preso no olhar dele. Ele tinha muitos lugares à escolha, mas foi sentar-se ao lado dela sem nunca desviar o olhar daqueles olhos que o prendiam. Ela, envergonhada como sempre, desviou o olhar quando percebeu que ele se ia sentar ao lado dela e concentrou-se no livro que esperava pacientemente à sua frente. Ele sentou-se, pousou o saco no chão e recostou-se. Olhou para ela, mas ela não lhe devolveu o olhar.

Havia algo de errado com Dan Brown. O suspense não a fazia saltar linhas para ler o desfecho da cena e ela sabia porquê: aquele toque suave não a deixava concentrar-se. Já tinha lido e relido o que Rachel Sexton tinha descoberto, mas sentia o seu braço acariciado por aquele braço moreno e bem delineado e a história não a prendia. Ele interrogava-se se seria habitual vê-la no metro. Já não era a primeira vez que apanhava o metro àquela hora, mas nunca a tinha visto e, no entanto, tudo parecia indicar que ela estava realmente familiarizada com aquelas andanças.

Aos poucos o sono foi ficando mais forte até que não aguentou mais e sucumbiu. Acordou com a certeza de que estava a cair de um lugar muito alto, mas era falso alarme. Tinha inclinado o corpo demasiado para o lado, mas não houve queda alguma porque ela estava lá. Ele pediu desculpa. A concentração no livro era cada vez mais difícil, sentia-o a inclinar-se cada vez mais e quando ele acordou e olhou para ela muito atrapalhado ela sorriu. Meia hora depois, trocavam sorrisos de cada vez que ele acordava amparado por ela. Não trocaram uma palavra, apenas sorrisos.

Ela tocou-lhe ao de leve no ombro. Estava de pé. Ele não percebeu e ela, muito pacientemente, explicou que saía na próxima estação. Ele sorriu, puxou as pernas para o lado e disse "até amanhã". Ela agradeceu e sorriu. Encaminhou-se para a porta e esperou que as portas se abrissem.


12 comentários:

  1. E o acaso deixa duas pessoas felizes! :) Espero a continuação!

    ResponderEliminar
  2. Se amanhã não meteres conversa com o rapaz, nunca mais te falo! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Falas, falas :) até porque quem garante que o vejo?

      Eliminar
  3. Depois dela sair, ele voltou a adormecer e caiu no colo da velha que, entretanto, tinha ocupado o lugar dela.
    Casaram e foram felizes para sempre. Sem meninos, porque a velha estava na menopausa. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ahahah foram felizes até a velha morrer e não lhe deixar nem um tusto!!

      Eliminar
  4. Não percam o próximo episódio, porque nós também não!

    ResponderEliminar