sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Família

A primeira vez que fugimos de casa, descalças e em pijama, eu tinha 6 anos. As marcas da violenta discussão eram bem visíveis na minha mãe, que chorava copiosamente e eu e a minha irmã mantivemo-nos em silêncio o caminho todo até casa da minha avó. Nessa noite ouvi a minha avó dizer à minha mãe que o dever de uma mulher, enquanto esposa, é aguentar tudo pela família. Não percebi naquela altura e continuo sem perceber, passados estes anos todos,  onde é que a violência doméstica encaixa no seio de uma família.
Hoje no café a coscuvilhice foi sobre uma mulher, pelo que percebi jovem, que deixou o marido durante a noite. "Não pensou na menina que agora vai crescer sem pai", disse uma velhota. E eu pensei em mim que, apesar de não guardar rancor do meu pai, nunca esqueci as vezes em que fugimos de casa.

15 comentários:

  1. Infelizmente o "conselho" que a tua avó deu, é o pensamento de muitas mulheres que vivem situações de violência doméstica.
    E a menina da mulher que deixou o marido estará melhor, pelo menos, psicologicamente. Não haverá um ambiente tenso e de discussões agressivas (nem falo das agressões físicas, pois espero que o homem não tenha batido na criança!). Será que essa velhota que falou cresceu com o pai em casa? Porque, sendo ela de uma era em que o papel da mulher era em casa e o do homem em casa, qual seria a relação dela com o próprio pai?

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    1. A minha mãe voltava sempre para o meu pai e eu nunca percebi porquê até que depois se fez luz: ela estava "formatada" para isso, para aguentar tudo em prol da família! As discussões foram reduzindo, a violência parou anos depois, mas será algo que me acompanhará sempre por isso esta menina espero que seja pequenina ao ponto de não se lembrar do que a mãe passou!

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  2. Infelizmente em Portugal ainda há muito a ideia do casamento para a vida no matter what, dos deveres das mulheres enquanto esposas, e por aí fora.
    A violência (seja perante mulheres, crianças ou homens) nunca deve ser suportada...

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    1. Concordo! Mas depois do que eu passei, nunca irei suportar uma situação destas.. é fazer as malinhas e abalar!

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  3. Esta história fez-me recuar umas boas dezenas de anos.
    Não pensou na menina que agora vai crescer sem pai
    E o pai, pensou? :(

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    1. Precisamente.. onde é que estava a "família" quando atentou contra a integridade física da mãe da criança?

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  4. Lamento muito todo o sofrimento :S É muito triste. Felizmente as mentalidades estão a mudar e pessoas que acham que violência domestica é tolerável em prol da felicidade familiar, é porque não percebem o verdadeiro conceito de felicidade! Beijinhos

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    1. Ainda bem que aos poucos as coisas mudam! O conceito de família pode ser muito abrangente mas nunca englobará violência, nunca!!

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    1. É algo que me acompanhará para sempre, sem dúvida!

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  6. Talvez por isso nos identifiquemos uma com a outra.. Só que a tua mae teve a coragem que a minha nunca teve e eu nunca fugi de casa ... será que o destino me reservou a mim a coragem de sair daqui?

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    1. A minha mãe fugia connosco, mas dias ou horas depois estavamos de volta! Lembro-me de já nem me preocupar com os livros da escola porque sabia que era uma questão de tempo até estar de volta.

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  7. Um pai que bate na mãe não é um pai. É melhor não ter pais monstro por perto.

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    1. Há famílias monoparentais bem mais "famílias" do que a dita normal, com pai e mãe juntos!

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  8. O triste disto é uma mulher quando ouve uma história destas responder: "não pensou na menina que agora vai crescer sem pai" em vez de parabenizar uma mulher por deixar um homem violento. Muitas mulheres continuam neste ciclo exactamente porque têm outras mulheres que em vez de ajudar ainda criticam.
    É tipo aquelas que dizem: ah eu não posso olhar para outro homem que levo logo porrada, ele tem tantos ciúmes, gosta tanto de mim. As mulheres têm aquela cabeça toda formatada, e a culpa muitas vezes é das mães. Uma mãe que vê uma filha a levar porrada e lhe diz para voltar para casa que o lugar dela é junto do marido ou não gosta da filha ou tem algo de errado no cérebro. Eu acho que se acontecesse isso com uma filha minha não descansava enquanto não arranjasse alguém que lhe partisse as perninhas...

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